domingo, 25 de abril de 2010

"Pleased to meet you, hope you guess my name"

Com os braços pra cima, espreguiçou antes de abrir os olhos.

Puta-que-pariu onde é que eu tô?

Num impulso rápido, sentou-se na cama e sentiu sua cabeça rodar de ressaca. Não conseguia pensar, tão pouco lembrava de algo da noite anterior. Esfregando as mãos no rosto, tentava desesperadamente descobrir de quem era aquele quarto e de que forma ele havia parado ali.

A última lembrança era do aniversário da sobrinha, no dia anterior.

Olhava em volta, buscando alguma pista. Roupas no chão, nenhum porta-retrato, livros, perfumes e bijuterias. Havia algum banheiro próximo, de onde vinha um barulho de chuveiro. Aos poucos, mesmo sentindo sua cabeça latejar, foi recordando que saira do aniversário para um bar, que estava com seu amigo...

Ah que ótimo! Estou sem carro!

Além de não ter idéia de onde estava, morava na cidade há pouco mais de um ano e nesse tempo apenas havia aprendido o caminho de casa para o trabalho ou para casa do irmão. Pensou em esperar a dona do quarto aparecer, mas não tinha idéia de como reagir. Decidiu colocar a roupa e ir embora, com sorte sairia sem ser visto.

Fez tudo rapidamente, mas sem fazer barulho. Desceu as escadas, quase alcançou a porta, quando uma voz feminina veio da cozinha:

- Bom dia! Ta indo embora?

- Não. É que... Bom dia, tudo bem?

Meu Deus. Quem é essa garota? Não é possivel... Que eu faço? Vou embora? Por favor, me faça lembrar de alguma coisa.

Resolveu voltar em direção a cozinha.

- Toma um café! - Ofereceu a garota.

- Obrigado. - Agradeceu olhando fixamente para ela, mas nada... não conseguia lembrar.

- Você está bem?

- Sim. Não... Quer dizer... um pouco de ressaca, só.

- Senta um pouco.

Gentilmente a garota puxou uma cadeira, sugerindo também que ele comesse algo. Mudo, continuava a olha-la. Aos poucos começou a lembrar de mais algumas coisas da noite, mas ainda não conseguia encaixá-la em nenhuma das lembranças. Pensava se deveria ter alguma atitude de carinho, algo que não demonstrasse tão claramente que ele estava absolutamente perdido ali.

- Não faça cerimonia! Coma algo! Quer me convencer agora que é tímido? - disse rindo, a garota.

Sim! Teve certeza que deveria demonstrar algo de intimidade logo, antes que ela percebesse que ele não lembrava de nada. Preparou-se para levantar, abraça-la, alguma brincadeira, qualquer coisas assim, quando ela, abrindo o armário e pegando mais uma xícara , gritou:

- Amor, larga isso aí! Vem tomar café!

Amor? Que porra é essa? Meu Deus! Quem são essas pessoas? Preciso sumir daqui!

- E aí cara, beleza? - Disse o homem, que entrou pela porta da cozinha sem camisa, estendendo a mão.

- Opa! - respondeu, apertando a mão do homem.

Deu três goladas rápidas na xícara de café e levantou para sumir rapidamente. Sentia-se desesperado.

- Bom, deixa eu ir...

Preparou para se despedir, quando sentiu uma mão em sua cintura.

- Bom dia!

Enxugando os cabelos, lhe deu um beijo e continuou...

- Dormiu bem?

Sim! Era ela! Em rápidos flashs recordou de tudo. Deles no balcão do bar, das risadas, do amigo indo embora, dela dizendo que eles moravam perto, que morava com a prima , deles no carro, do caminho até a casa dela, da noite...

- Sim, bastante! - respondeu retribuindo o beijo, completamente aliviado.

Enquanto a observava, conversando com sua prima e o namorado, ia lembrando de todos os detalhes e chegou a sentar novamente. Foi quando se deu conta de que ainda faltava algo...

Ok. Como é o nome dela?

Esperou um pouco pra ver se recordava ou se alguém a chamaria pelo nome, mas nenhum dos dois aconteceu. Era melhor ir embora mesmo.

- Bom, preciso ir!

- Vamos, eu te levo!

Seguiram para o carro e no caminho conversaram mais um pouco sobre a vida, loucuras, bebidas e até sobre amnésia alcoolica! Pensou em aproveitar a deixa e dizer que não lembrava do nome dela, mas desistiu. Algo lhe dizia que era Jaqueline, mas não quis arriscar.

Ao chegarem a casa dele, pediu a ela o telefone e anotou no celular ,como Jaqueline mesmo. Despediram-se com um beijo e um "adorei". Assim que desceu do carro, deixou cair sua carteira no chão, quando a ouviu:

- Rodrigo, sua carteira caiu!

Rodrigo?

Seu nome estava longe de ser Rodrigo! Abaixou, pegou a carteira, agradeceu e resolveu não dizer nada. Vendo o carro dela se afastar, teve uma crise de riso e entrou sem acreditar no que havia vivido!

Nunca entendeu se ela apenas havia se enganado ou se aquilo era um sinal de que ela teria percebido sua "amnésia".

De qualquer forma, também nunca se convenceu de que ela se chamasse Jaqueline.

sábado, 24 de abril de 2010

Ilegal, Imoral ou Engorda

E ai que a partir de algum momento a gente começa aprender que não deve cuspir no chão, que a tomada da choque, que refrigerante é só aos finais de semana, que menina precisa cruzar as pernas e menino não pode coçar o saco na frente dos outros.

"Vivo condenado a fazer o que não quero
Então bem comportado às vezes eu me desespero
Se faço alguma coisa sempre alguém vem me dizer
Que isso ou aquilo não se deve fazer"

Até um certo ponto, enquanto bebês, tudo que a gente faz é bonitinho. De repente da noite pro dia uma palavrinha de três letras começa a ser repetida a cada 3 minutos e sempre num tom nada gentil...

"NÃO!"

"NÃO PODE!"
"Restam meus botões...
Já não sei mais o que é certo"


Assim, colecionando todos eles, que teoricamente sempre foram dados "para o nosso bem", a gente cresce. Aos poucos eles deixaram de sair da boca de algum adulto, para morar dentro de nós mesmos.

"Há muito me perdi entre mil filosofias
Virei homem calado e até desconfiado
Procuro andar direito e ter os pés no chão
Mas certas coisas sempre me chamam atenção"


Com o tempo, passamos a desafiar alguns, largar mão de outros e existem aqueles que chegam a virar SIM! Mas tem aquele bocado que a gente respeita ou até se orgulha!

Quantas águas por aí, a gente bate no peito e diz "dessa não beberei"?!?!

Ahhh se lembrassemos que o tempo passa e as coisas mudam...! Que inevitavelmente bate na porta o famoso " cuspir pra cima...."!!!

"Cá com meus botões... Bolas eu não sou de ferro"

Acontece que é no momento em que "cai na testa", que a gente descobre que aquele "NÃO", aquele"NUNCA", só tinham tamanho! [isso se você não matou, não roubou ou o escambau, né Seu Zé?].

"Que culpa tenho eu
Me diga amigo meu.."

Aí é quando você volta pra casa e parado no transito [com o "cuspe na testa"], tem uma crise de riso e só consegue pensar:

"Como a gente deixa de viver por besteira!"


Será que tudo que eu gosto
É ilegal, é imoral ou engorda?"

(ROBERTO CARLOS)

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Bitter Night

Era domingo de páscoa. Olhavam para o chão em silêncio.

Sentados no mesmo sofá, apenas a mão dele sobre a perna dela era o sinal de que, talvez, nem tudo estivesse perdido.

Jogando a cabeça para trás, ele quebrou o silêncio, após um longo suspiro, olhando para o teto:

- É... é dificil acertar. Perdi um outro relacionamento, pois não falava o que sentia e agora este porque fui dizer o que estava sentindo...

Ela não conseguia dizer nada. Sabia que havia errado ao terminar com ele, quando ele apenas dividiu que sentia-se um pouco confuso em relação aos dois. Sabia que havia errado, sentia-se amargamente arrependida, mas não conseguia dizer nada para desfazer aquilo tudo.

Apertando a mão dele, apenas lembrava que dias atrás, ele penteava o cabelo dela no banho e enquanto ela se maquiava, faziam planos de fazer uma trilha em algum feriado qualquer.

Foi então que ela soltou baixinho:

- Não acredito que isso esta acontecendo...

No fundo, nenhum dos dois conseguia entender o que de fato havia acontecido, mas sabiam que assim que saissem daquela sala, não teriam de volta os dias mágicos que haviam vivido nos ultimos dois meses.

Ela arrependida.

Ele convencido de que terminar, realmente seria melhor.

Ainda apertando a mão dele tentou, de forma confusa, voltar atrás. Mas mudo, ele continuou com os olhos voltados para o teto, até que num impulso rápido se levantou:

- Eu vou embora.

- Não, não vai embora.. Não assim.

Ignorando o pedido, arrumava suas coisas dentro da mochila, quando sacou de dentro dela o livro que estava lendo e disse que ela abrisse na página 52 e lesse a ultima frase. Assim ela fez, passando o olho rapidamente, fechou os olhos com força e leu a frase em voz alta.

Despediram-se em seguida e ele foi embora.

Não se viram mais.

Naquela páscoa, ele havia lhe dado um ovo de páscoa lindo, embrulhado com um tecido bordado. Deste ovo, ela não conseguiu comer um só pedaço, mas guardou o tecido...

Na páscoa seguinte, tarde da noite procurou o embrulho na gaveta. Encontrou.

Sentindo um amargo na boca, deu-se conta que ainda não o havia esquecido. Respirando fundo, guardou novamente, fechou a gaveta...

E a lembrança.

Ah, o livro?

Feliz Ano Velho.

A Frase?

"o amor não precisa ser eterno, mas infinito enquanto dure".