quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Destination unknown

Na estação de trem...

- Boa tarde senhor, vai pra onde?
- A que horas sai o próximo trem?
- Deu sorte senhor! Sai daqui 15 minutos! Qual o destino?
- Não sei...
- Não sei? Desculpe, não entendi!
- A que horas sai o último trem?
- Às 20hrs. Qual o destino, meu senhor?
- Às 20hrs? Ok, vou aguardar.

Deixando a atendente da estação de trem confusa, se afastou procurando um lugar para sentar. Sentou-se, cruzou as pernas e entre roer as unhas e fumar seu cigarro, algo o atormentava: "Qual o destino, senhor?". Definitivamente sabia que não tinha idéia pra onde queria ir. Na verdade, nem ao menos sabia se queria mesmo ir a algum lugar.
Ali, sentando, com os cotovelos apoiados no joelho, fumando o quinto cigarro, um velho senhor se aproxima e quebra o silêncio sentando-se junto a ele.

- Ah saudade da época que eu fumava!

Olhando para o velho senhor, nada disse, apenas colocou a mão no bolso oferecendo um cigarro de seu maço.

- Não, meu filho, obrigado. Já faz tempo que esse vício não me pertence mais... mas sempre que vejo alguém fumando relembro o prazer que tinha a cada trago.

Ainda sem dizer uma palavra, guardou seu maço de cigarro e voltou a fumar, olhando para frente.

- Vai pra onde, meu filho?

Num cruzar de pernas brusco, tinha a intenção de mostrar que não queria papo. E continuou sem dar uma só palavra. O velho senhor esperou alguns segundos até quebrar novamente o seilêncio.

- É... na verdade não é só do cigarro que eu tenho saudade. Sinto muita falta dessa época em que me dava ao luxo de não saber pra onde ir.. Ahhh havia tanto tempo pela frente.... Bastava uma inquietação pra que eu me levantasse, pegasse minha mala e saisse por aí....! A arte de deixar algum lugar quando não se tem pra onde ir....

Bastante incomodado com a insistencia, mas agora de alguma forma interessado nas palavras q dizia, voltou seu rosto para o lado e passou a observar aquele senhor que continuava a falar sem se preocupar muito se sua presença estava agradando ou não.

- Pensa o que? Que eu achava aquilo bom? (deu uma longa gargalhada) Vivia sempre angustiado, sentindo que não era daquele lugar, seja lá qual fosse... Vivia cheio de gente e tava sempre me sentindo só.... Vivia indo de um canto para o outro, quando na verdade tudo o que queria era um canto quieto pra me acertar. Como vc pode ver, o tempo passou pra mim...e hoje sou só um velho, cheio de histórias pra contar...

Mudo, olhava como que hipnotizado as palavras do velho, que continuava...

- Quando foi que eu deixei de sentir essa inquietação?? (mais uma gargalhada longa...) Ora meu rapaz, o que acha que venho fazer nessa estação de trem quase toda semana? O que bate dentro do peito não mudará nunca... Acontece que com o tempo a gente aprende a ver as coisas com outros olhos... Hoje essa tal inquietação, vontade de ir sem saber pra onde, não me angustia mais... venho pra cá e tem sempre um jovem como você, me fazendo reviver essa época...

Após um breve silêncio, o velho senhor apoia-se no braço do banco na tentativa de se levantar, imediatamente é amparado pelo jovem ainda hipnotizado e mudo.

- É.... passamos a vida numa luta inútil contra os galhos pra descobrir lá na frente que é no tronco que está o coringa do baralho. Raul Seixas, quem disse isso, não!?!

Ainda apoiando os braços do senhor, mas agora com seus olhos claros cheios d'agua sussurrou

- Acho que sim...

Colocou as mãos novamente no bolso, tirou seu maço e mais uma vez ofereceu um cigarro. Já de pé, ajeitando as calças, o velho senhor coloca as mãos no braço do jovem e diz...

- Não acabe com seu pulmão, suas unhas e muito menos com seu coração... você vai precisar deles quando decicidir pra onde ir...

Dando tapinhas no braço do rapaz, o senhor se afastou e caminhou a passos lentos em direção a saída. Ainda de pé, o rapaz acendeu um cigarro, novamente se sentou e seus olhos claros, até então mareados, avermelharam-se e um choro o tomou.

Ali terminou mais aquele cigarro, ainda sem saber pra onde ir....

Um comentário:

Richard disse...

Ah, Bella, como pode?
Ora me sinto o jovem, ora o velho, e ao fim da história, fico sem saber pra onde ir.
Só um cigarro mesmo...
Amo...