domingo, 29 de novembro de 2009

Vulgo veneno!


É personagem presente desde que nos conhecemos por gente, mas passamos a vida sem saber conviver com ele.

Há quem diga que em alguns casos ele é saudável para uma relação, mas confesso que nunca vi absolutamente nada de positivo no ciúme.

Para mim, nunca foi e nunca será uma visita desejada.

Seja quando vem de mim ou quando o recebo de alguém, sinto um desconforto absurdo. Aquela velha e boa preguiça infinita.

Tá, confesso que quando vem de fora, às vezes, parece bonitinho, mas apenas para minha vaidade, não para mim!

Por insegurança, por sentimento de posse ou apenas por um certo "charme", acredito que o ciúme será sempre um veneno.

Quem caminha comigo sabe que a definição de amor que mais respeito, é a que o amor é quando se abre espaço para o outro crescer (Dada por Jorge Mello, compositor e grande amigo de papai), logo não consigo aceitar o ciúme como parte do amor.

O ciúme só abre espaço para angústia, para discussão, para vetar ou ser vetado de alguma coisa.

Ana, Ana...quem ama cuida!

Cuida do que...?

De quem se ama? Do que se ama? Ou de nossa insistente insegurança?

Seja lá quais forem as respostas, ele será nosso companheiro sempre, mais cedo ou mais tarde.

De qualquer forma, que lutemos bravamente contra ele, nos sentindo cada vez mais livres, podendo assim gozar de outros sentimentos [cá pra nós] um bocado mais divertidos.

[...] Com o tempo aprendi que o ciúme é um sentimento pra proclamar de peito aberto, no instante mesmo de sua origem. Porque ao nascer, ele é realmente um sentimento cortês, deve ser logo oferecido à mulher como uma rosa. Senão, no instante seguinte ele se fecha em repolho, e dentro dele todo mal fermenta. O ciúme é então a espécie mais introvertida das invejas, e mordendo-se todo, põe nos outros a culpa da sua feiura. Sabendo-se desprezível, apresenta-se com nomes supostos, e como exemplo cito a minha pobre avó, que conhecia seu ciúme como reumatismo [...]
Chico Buarque- Leite Derramado

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

O último

Era o quinto dia de UTI.

Não subi, fiquei no saguão do hospital com o Samuel, meu afilhado, nos braços, enquanto ele dormia. Eu não queria entrar para vê-la, não aguentava mais aquilo tudo... eu só queria que aquele pesadelo acabasse e tudo voltasse a ser como antes.

Ana, é melhor você subir....

Sileide dizia, com as mãos na minha perna.

Eu não quero.

Eu não queria mesmo. Tava cansada, revoltada, sentia meu corpo dormente...

Não lembro o que pensava, nem sei se conseguia pensar em algo, lembro-me apenas de ficar olhando o Samuel dormindo. Ali fiquei por uns dez minutos, até que subitamente passei ele para o colo da Sileide e subi.

Eram dois lances de escada.

Não sei porque, a cada degrau algo me invadia, uma esperança, não sei. Mas, durou só até o último degrau, quando vi a imagem da sala de espera. Minhas tias, minha prima, alguns amigos, minha irmã, todos tinham os olhos vermelhos e olhavam para o chão. Assim que cheguei ao andar, alguém partiu para me abraçar, desviei e fui em direção à porta da UTI.

Já havia passado o horário de visita e mesmo assim ninguém me barrou. Era o primeiro sinal.

Enquanto lavava as mãos, tentava desperadamente o olhar de algum médico, algum enfermeiro, mas nada, assim que me viam, desviavam o olhar para baixo.

Minha lembrança é em camera lenta. O corredor, as pessoas, aqueles aparelhos todos, os sons...

Em frente a cama, havia uma espécie de banquinho. Ali sentei e fiquei.

Caralho. Minha mãe vai morrer.

Não sei quando tempo fiquei ali sentada, mas não foi pouco. Chorei muito. Assim que meus irmãos se afastaram um pouco, tomei coragem e levantei. Nunca acreditei nessas coisas, mas é verdade, assim que encostei nela os batimentos cardíacos foram de 44 para 160.

Ela sabia que eu estava ali.

Foi então que decidi me despedir. Lembro-me palavra por palavra.

Encostei minha cabeça na dela e cantei, como fiz todos os outros dias...

Dali pra frente, meu corpo adormeceu de verdade, tudo formigava. Eu ouvia, mas não escutava, eu olhava, mas não enxergava...

Ao deitar, para dormir, um filme de todos os anos me veio à cabeça e ao fechar os olhos eu enxergava uma luz vermelha e forte. Assim adormeci abraçada ao Thiago, meu irmão, mas apenas por duas horas, quando fui acordada para o pior dia de minha vida.

Nonô havia partido.

Desde pequenina, perguntava à ela:

Mãe, você me ama?

E ela sempre respondia:

Pouco não.

A última vez que estive com ela acordada, minha última pergunta foi essa, mas a resposta pela primeira vez foi diferente.

Sim, filha. Muito.

Há exatos um ano e quatro meses, é só a recordação dessa resposta que me alivia a dor da saudade, mesmo no meio do choro com a lembraça desse último dia.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Presente Passado

Eu sempre quis ir. Ninguém queria me acompanhar.

Até que nesse último feriado, havia criança! Quem vai negar pedido de uma criança?

Sendo assim, lá fomos nós andar de Maria Fumaça!!!!

Eu sei que sou exagerada, intensa e o escambau, mas devo dizer que foi um dos passeios mais bacanas até hoje. Talvez pelas companhias, pelo meu estado de espírito ou provavelmente pelo meu encantamento com o que é antigo (Vinis? Fala mais...).

Acho que não tirei o sorriso do rosto um minuto só.

A história dos vagões, um deles de 1912, o apito forte, o balanço, a fumaça, a paisagem, a parada na estação, os telefones antigos, os bancos, os vagões desativados e suas cortininhas, o chefe do trem "furando" os bilhetes... tudo me encatava muito.

Ali, olhando aquilo tudo, passei a pensar nas histórias que aquele cenário todo guardava. Tentava imaginar as pessoas com suas malinhas quadradas, seus vestidos floridos, seus relógios de bolso, suas angustias em partir dali, a felicidade em voltar ou chegar àquela estação.

Quantos segredos, paixões, dores, esperanças, amores, quantos sentimentos foram deixados ali, em casa banco, em cada janela...?

O que importa isso agora?

Hoje somos turistas, tomando sorvete da Kibon, tentando achar música com o barulho do trem...

Foi ai, já na volta do passeio, que um sopro de nostalgia me invadiu. Aquela cidade, pra onde voltávamos, guardava também uma doce lembrança da, talvez, mais amarga relação que já tive. Me permiti, então, colocar o MP3 nos ouvidos e recordar, agora a minha história, até que o trem chegasse na estação final.

Não deu muito certo.

Passei o resto do feriado com a boca amarga e a lembrança viva.

O que importa isso agora?

Às vezes somos só turistas, mesmo que da nossa própria história.

"Há descaminhos em meus passos
Uma sombra que abraço
Um presente passado
Uma vontade tamanha de não ter mais vontade
Não admiro os covardes mas agora...
É tarde" (I. Taviani)

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

The Way You Look Tonight

Não devem ter menos de 50 anos.

Ela deve pintar o cabelo a cada 15 dias.

Ele faz a barba sempre no banheirinho da área de serviço.

Eles fumam. Muito. Sempre na janela da cozinha-área-de-serviço, que é em frente a janela da sala da Téia. E há um ano, desde que a hermanita mudou-se para esse apartamento, os observo.

Ou melhor, os admiro.

Talvez sejam casados há 30 anos, talvez tenham se encontrado há poucos anos, não importa, eles são [ali da minha visão, do outro lado], o retrado da palavra companherismo. Às vezes ela está cozinhando, às vezes lavando roupa, às vezes só segurando um pano de prato na mão e ele está ali, conversando com ela, entre uma tragada e outra.

Por vezes percebi um clima tenso, sério, mas nunca de briga, sempre em diálogo. O comum mesmo é estarem sempre sorrindo um para o outro, como se estivessem falando besteira ou lembrando alguma viagem de verão na juventude.

A primeira vez que tive vontade de escrever sobre eles, foi há muitos meses atrás, quando ao passar do quarto para cozinha, presenciei um beijo apaixonado, desses de cinema, dos dois ali na janela.

Corri, meio adolescente-meio "véia" fofoqueira:

Téeeia, vem ver!

Cena linda de morrer, acreditem!

Bom, ali eu me tornava oficialmente fã daquele casal. Mas mal podia imaginar que, o melhor mesmo, ainda estava para acontecer! Há dias atrás, num sábado à noite, ao som (alto) de Frank Sinatra, eles estavam dançando.

Isso mesmo! DANÇANDO!

Ela, de camisolinha de algodão azul dançava pra ele, enquanto ele, só de bermuda, abria os braços balançando o corpo, também. Dançaram separados, juntinhos, brincando, amando...

E nós?

Desligamos o som, paramos de falar e ficamos ali, paralisados, observando. Nós, mulheres, suspirávamos e provavelmente imaginávamos o mesmo: a mesma cena com nossos respectivos daqui a vinte anos. Os homens... bom, os homesns certamente pensavam o mesmo também: hoje os veios vão transar!

E acho que estavam certos. Pouco depois as luzes se apagaram, o som desligado e a janela do quarto foi fechada.

Em tempo de tanta descrença no amor, nesse dia acreditei um pouco mais na existência, manifestação e beleza dele.

Ao casal da janela, a Ilma e Toninho, Pai e Vilma, meu sorriso grande e sincero de agradecimento, vocês me fazem acreditar verdadeiramente no amor.

E eu lhes devo muito por isso.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Ah! Bruta flor do querer...!

Onde queres o ato, eu sou o espírito
E onde queres ternura, eu sou tesão
Onde queres o livre, decassílabo
E onde buscas o anjo, sou mulher
Onde queres prazer, sou o que dói
E onde queres tortura, mansidão
Onde queres um lar, revolução
E onde queres bandido, sou herói

Eu queria querer-te amar o amor
Construir-nos dulcíssima prisão
Encontrar a mais justa adequação
Tudo métrica e rima e nunca dor
Mas a vida é real e de viés
E vê só que cilada o amor me armou
Eu te quero (e não queres) como sou
Não te quero (e não queres) como és

O quereres e o estares sempre a fim
Do que em mim é de mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal
Bem a ti, mal ao quereres assim
Infinitivamente pessoal
E eu querendo querer-te sem ter fim
E, querendo-te, aprender o total
Do querer que há e do que não há em mim.

Cae, Cae... alguém já lhe disse que és PHODA? rs...

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Carpe Diem

Tudo certo. Determinado. Olhos fixos numa direção, até que...

Rá! Amanhece outra vez!

Novo. Novo. Novo.

Clareia aqui. Escurece ali. Perde-se um pouco. Ganha-se um bocado a mais.

Deliciosa inconstância da vida.

Antigamente me cansava com ela. Hoje, divirto-me como nunca.

Poucos antes de fechar os olhos, já com o dia claro, sorrio para essa loucura toda.

O que há de melhor na vida do que simplesmente vivê-la??


Ps: Ih Mani, virou diário mesmo... rs... Bom, é o que temos pra hoje! ;)

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Fica José!

Quem caminha comigo já sabe disso, já viu ou ouviu falar!

Meu pai, é genial!

E não é corujice ou orgulho de filha não! Eis a prova!

Fica?

Por José Pontes

Será namoro ou amizade? Rolo, cacho, ensaio de amor, romance ou pura clandestinidade? “Qualé a tua, cara? A garota do tempo que nem chove nem molha. Só no mormaço, na leseira das nuvens esparsas.


Amor líquido, lembrando do livro de Zygmunt Bauman sobre a fragilidade dos encontros amorosos, fica cada dia mais difícil saber quando é namoro ou apenas um lero-lero, vida noves fora zero... Cada vez mais raro ouvir falar em pedido formal de enlace: “Você me aceita em namoro”? Pior ainda se for pedido de noivado. Casamento então, nem se fala.


Lembro que pedir a mão aos pais, meu Deus, era um nervosismo curado com um conhaque tomado no bar da esquina para criar coragem. Seriam mudanças do amor?


Parece que a maioria dos homens, além de não pedir em namoro, além de não pegar no tranco, ainda corre em desespero diante de uma sugestão ou proposta de casamento feita pela moça. E agora são as mulheres que partem para o ataque e, diante de uns temerosos ou acanhados sujeitos, escancaram suas vontades, suas paixões, e fazem suas apostas, seus pedidos, põem na mesa os seus desejos e cartas de intenções.


No tempo de namoro havia sempre o medo do fora. Um sim, mesmo o mais previsível, era uma festa. Já no tempo do “ficar”, quase nada fica, nem o amor daquela rima antiga. Porém alguns sinais continuam valendo e dizem muito. O ato das mãozinhas dadas no cinema, por exemplo, ainda é o maior dos indícios. É que nem ramalhete de flores, carta ou um e-mail de intenções. Pode valer mais do que uma cantada nervosa, mais do que o restaurante japonês, mais do que um amasso no carro, mais do que um beijo com jeito, daqueles que tiram o baton e a força dos membros inferiores. “Vamos pegar uma tela, amor?”, como se dizia não muito antigamente. Eis a senha. Mais até do que um jantar à luz de velas, que pode guardar apenas um desejo de sexo dos dons Juans que jogam o jogo jogado e marketeiro. O cinema, além da maior diversão, como diziam os cartazes de Severiano Ribeiro, é a maior bandeira. Nada mais simbólico e romântico. Os dedos dos dois se encontrando no fundo do saco das últimas pipocas... Não carecem uma só palavra, ainda não têm assuntos de sobra. Salve o silêncio no cinema, que evita revelações e precoces besteiras.


Ah, os silêncios iniciais, que acabam voltando depois, mas voltando sem graça, surdo e mudo, eterno retorno de Jedi. Nada mais os unia do que o silêncio, escreveu mais ou menos assim, com mais talento, claro, Murilo Mendes, poeta dos melhores e mais líricos. Palavras, palavras, palavras... Silêncio, silêncio, silêncio... Dessas duas argamassas fatais o amor é feito e o amor é desfeito. Simples como sístole e diástole de um coração que ainda bate. E será que fica?

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Se fosse bom...

Não adianta, certas coisas em nós, não vão mudar nunca.

Algumas lamentavelmente, outras com a graça de Deus!

A gente se esforça aqui, luta ali, jura que vai tentar, que vai começar, terminar, mas pra certas coisas não tem jeito, é só perda de tempo.

Eu?

Eu nunca vou deixar de dormir com a televisão ligada, de ter a manha-mau-humor de manhã, de ser sonhadora, de adorar cafuné, de fechar os olhos com força quando toca aquela(s) musica(s), de sentir saudade de mamãe, de venerar o mar, ser romantica, dramática, de dirigir cantando, ser bagunceira, querer sempre mais, de querer ter razão, de ser marrenta e mandona.

Hoje, ouvi em forma de conselho que eu deveria mudar. Ser mais fechada, expor menos o que sinto e o que penso. Segundo o conselheiro, isso protege e evita sofrimento.

Será?

É claro que vivo lutando pra ser menos bagunceira, mandona, dramática, mas no fundo não sei se quero deixar de ser assim, efetivamente. "Isso" me forma, "isso" sou eu.

Não sei se quero ser mais fechada, engolir palavras e sentimentos.

Antes do ato de mudar, procuro descobrir-me. Tornar-me.

Provavelmente não evito sofrimento com isso, mas com certeza, caro conselheiro, também não me evito, não fujo "do espelho". E já que a brincadeira é dar conselho, este é o meu para você...

Mas eu lhe entendo...

certas coisas nunca vão mudar...!

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Feelin' Love


Saquê?

Uisque.

Puro?

Gelo.

Mais?

Suficiente.

Dança?

Assisto.

Acompanha?

Aceito.

Bem assim?

Obrigada.

Ligo?

Sim.

Mais um?

Do seu copo.



A sempre um outro olhar na mesma direção,

um paladar para o mesmo vinho tinto,

o sorriso que aceita a sedução,

o arrepio que sucede a respiração,

a alegria que acompanha o medo,

o suspiro para a chegada dele,

o novo,

de novo.