sexta-feira, 27 de maio de 2011

Re-luz

Já não se falavam direito há semanas, somente o essencial. Apesar da decisão pela separação, conseguiam manter uma convivência pacífica.


Foi no meio da semana, ele assistia o jornal na sala e ela mexia no computador no quarto, quando bruscamente a luz acabou.

- Ai caramba! - ela disse, escorando na parede em direção a sala.

- Onde tem velas? - perguntou ele.

- Não sei, coloquei na última lista de compras. Você não comprou?

- Você acha mesmo que eu vou lembrar? Já viu o tamanho das suas listas de compras?

- Grosso.

- Não começa.

- Era pra ter vela aqui! Empresta seu celular.

- Com o celular dele, passou a procurar nos armários da sala, na cozinha, mas não havia vela em lugar nenhum.

- Vamos beber? - perguntou, tirando o celular da mão dela, indo em direção ao bar da sala.

- Que? Eu vou dormir. Empresta seu celular pra eu achar o meu.

- Não! É sério... bebe comigo! Você sabe que eu odeio beber sozinho...

- Para de ser ridículo. Eu vou dormir.

- É cedo, você nunca dorme antes da meia noite. A gente bebe uma garrafa de vinho e você vai dormir.

Vencendo a resistência dela, puxou a garrafa de vinho e duas taças.

- Você não tem vergonha de beber todo dia, não?

- Você não tem vergonha de ser exagerada? - respondeu rindo, sentando-se no chão da sala, onde havia um foco de luz, provavelmente do prédio em frente.

Com os braços cruzados e a cara amarrada, aproximou-se, euqnato ele abria o vinho.

- Senta...

- Isso é ridículo.

- Para de ser chata, é só um vinho.


Sentou e assim que ele serviu a primeira taça. tomou-a de sua mão e deu o promeiro gole. Ele apenas abaixou a cabeça sorrindo, serviu a outra taça e sussurrou:

-Salud!

Permaneceram em silêncio por alguns goles, até que ele, olhando para sua taça perguntou:

- Lembra quando havia apenas o colchão na sala e tomamos um porre de vinho, comemorando que no dia seguinte chegaria a geladeira e o sofá?

Ela não respondeu e foram mais alguns goles em silêncio, até que ele continuou.:

- A gente não acordou com o despertador! Quando os entregadores chegaram estávamos nus e mal conseguíamos andar de tanta dor de cabeça! Você prometeu naquele dia que nunca mais beberia vinho, lembra? - ele ria

Ela continuou sem responder e então foram logos goles em silêncio.

- Onde foi que a gente errou?

- Eu vou dormir.

- Fica.

Segurou a mão dela com força e novamente pediu...

- Por favor, fica.


Ela estava dura. Conforme ele se aproximava, na intenção de abraçá-la, mais rígida ela ficava. O tempo de soltar a taça da mão dela, foi o tempo de conseguir confortar seu choro. Era um choro calado, mas forte.


Abraçaram-se com força, como a muito tempo não faziam. sabiam que havia muito a dizer, mas sabiam também que não deveriam estragar aquele momento com perguntas as quais já sabiam as respostas.

- Vou dormir. - ela repetiu, tentando se recompor.

- Ele não disse nada, apenas segurou o rosto dela com as duas mãos e de olhos fechados encostaram suas testas. Choravam os dois.

Beijaram-se

Ela sentiu a barriga gelar. Ele a desejou.

Amaram-se.


Com a claridade das primeiras horas do dia e com o barulho da televisão ligada, acordou nua e desorientada. Levantou, tomou banho e enquanto o via dormir deixou um recado ao lado de seu celular:

"Vou passar uns dias na casa da minha mãe. Se cuida"


"Prefiro então partir a tempo de poder

a gente se desvencilhar da gente.

Depois de te perder, te encontro com certeza

talvez num tempo da delicadeza...

Onde não diremos nada,

nada aconteceu.

Apenas seguirei como encantado ao lado teu."

(Chico Buarque)

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