sexta-feira, 12 de agosto de 2011

O primeiro

















Antes do primeiro beijo, a observou de longe sentada enquanto o aguardava.

Sabia que poderia beijá-la, mas ainda sentia-se receoso. Aproximou-se e assim que ela o viu, abaixou a cabeça sorrindo, deixando o cabelo cair sobre o rosto.

Enquanto assistiam ao primeiro filme juntos, no cinema, ela enterrou a cabeça no peito dele e encolhida, tinha o olhar distante. Ele chegou a perguntar se ela estava bem, mas com os braços a envolvia e demostrava saber que aquilo era medo e que ela não deveria sentir isso, ele estava ali.

A primeira vez em que ficaram a sós, ele saiu da cozinha e em silêncio abriu o piano: Tocou "Beatriz".

Ela chorou.
Ele sorriu.

Enquanto tocava e a via chorar sorrindo, sabia que ela jamais entenderia, naquele momento, o que ele queria dizer com aquela música. Ela ainda não sabia, mas ele já tinha a certeza de que não iria tê-la por muito tempo. Fatalamente, os oito anos de diferença, a tirariam dele.

E foi o que aconteceu tempos depois.

Juntamente com os presentes que comprara em sua primeira viagem à Europa, trouxe a notícia de que eles desatariam as mãos.

Ela chorou.
Ele também.

Foram dez anos até que, pela primeira vez, reencontraram-se.

Tudo parecia pouco para que soubessem sobre o outro, quais caminhos haviam percorrido, quais lugares tinham conhecido, quais os vícios já não existiam e quais eram os novos. Agora, em seu apartamento, mal acreditava ao vê-la brincar com seu cachorro e a sorria com os olhos fechados enquanto bebia seu vinho.

Ela era uma mulher agora.
Ele sentiu-se um menino diante disso.

"Toca Beatriz"

Ele riu alto.

"Cheguei a pedir pra taxista trocar de rádio, quando ela tocou. Isso deve ter uns três anos... Nunca mais ouvi ou toquei..."

Um silêncio invadiu a sala e ela o abraçou. Beijaram-se pela primeira vez após dez anos.

O sol entrava pela janela quando abriu os olhos e não o viu na cama. Embrulhou-se no lençol e ainda com os olhos entre abertos caminhou no corredor em direção a sala.

Ele estava ao piano.

Sentou-se e encostou a cabeça em seu ombro. Indagado por não estar na cama, apenas sorriu, deu o último gole no vinho e a beijou na testa.

"Eu não dormi"

"Preciso ir embora"

"Eu sei..."

Em silêncio ficaram abraçados por um longo tempo.

Quando já estava no quarto, procurava sua roupa quando ouviu as primeiras notas do piano. Era "Beatriz".

Ela apertou a roupa na mão, chorado.
Ele chorou sorrindo.

Há anos não sabem mais um do outro.

Ele foi o primeiro homem da vida dela.
Ela é para sempre a mulher dele.


sábado, 6 de agosto de 2011

Sweet Time

Ah esse tempo teimoso que insiste em passar voando, tão rápido que quando a gente se dá conta ele já passou "há tempos".

Mesmo que não nos demos conta, ele vai passando e com ele leva nossa inocência, ingenuidade, nossa cara sem marcas, as calças que já não nos servem e por vezes leva ate nossa imaturidade.

Assim, quando a gente se percebe ele levou tudo, mas trouxe muito!

Essa semana, em uma feliz coincidência, tive a sorte de reencontrar figuras da infância e da adolescência, que não via há doze e há nove anos!

Em ambos os encontros, as tantas histórias se perdem entre os sorrisos e a frase de "Caraca! Quanto tempo!", que geralmente é repetida a cada cinco minutos. Os olhares tentam reconhecer o rosto, os trejeitos e trazem à memória as doces lembranças.

Mas em algum momento, algo invade o olhar e é como se nunca tivéssemos deixado de ver aquelas figuras. De repente somos tomados pela sensação de que por mais que o tempo passe [e ele passa], há algo em nós e entre nós que não muda e não passa nunca.

À esses queridos que me encheram o peito de alegria e uma gostosa nostalgia, meus sorrisos de agradecimento.

À você, teimoso tempo, sorrio também por me trazer essas sensações!

E fica a máxima: Não terminamos ou começamos nada... estamos sempre continuando!