Costumo dizer que uma relação acaba muito antes de ser terminada.
Não foi diferente ali.
Foram meses de olhos acordados antes do despertador, olhando para o teto e perguntando por que diabos eu estava insistindo naquilo. Havia tempos, exatamente às oito e trinta da manhã o dia se tornava preto e branco e só tomava alguma cor quando já era noite.
Mas não havia sido sempre assim.
Antes havia pulo da cama, cantoria no banho e no transito. Havia cores, bom dia, discussões calorosas, pizza às onze da noite entre papeis e indicadores. Havia propósito.
Alias, foi ali no tempo das cores, que talvez tenha descoberto o verdadeiro sentido da palavra propósito. Ironicamente, regida pela mesma maestria que mais tarde iria me fazer descobrir profundamente sentimentos como a decepção e o desprezo.
E já que todo carnaval tem seu fim, foi numa quarta feira que meu tempo ali terminou.
Minhas malas já estavam prontas.
Agradeci choros hipócritas e chorei com agradecimento dos poucos e verdadeiros personagens que queria levar dali. Reconheci olhares que denunciavam querer estar no meu lugar, que desejam ver seu tempo terminado ali também.
Desci o elevador segurando o pouco que queria levar daqueles anos e confesso que por quinze andares, fui tomada por um medo, chegando a me perguntar "e agora?". Foi quando a porta do elevador se abriu, sai pela porta daquele prédio e jamais esquecerei a sensação de liberdade que me invadiu.
Havia um mundo a se desbravar. Havia um mundo só meu.
E então fez-se um novo tempo, cheio de cores e música. Todos regidos por um propósito.
Meu propósito.
"Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas
que já têm a forma de nosso corpo...
Esquecer os caminhos que nos levam sempre aos mesmos lugares
É o tempo da travessia!
E se não ousarmos fazê-la,
Teremos ficado, para sempre
à margem de nós mesmos."
(Fernando Pessoa)
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