domingo, 7 de dezembro de 2008

JE NE PARLE PAS FRANÇAIS

Há mais de dez minutos ele a observava, sentada ali, mexendo seu café, provavelmente já frio...
- Bon jour joli, je peux te payer autre café ?
- ... pardon, je ne parle pas Français...
- Je savais ! - a sorriu já puxando uma cadeira....
- Pardon..je ne....
- Brasileira, não?
Ela então sorriu e balançando a cabeça respondeu que sim...
- Ok! Vamos tentar outra vez...! levantou-se e repetiu, agora em português... - Bom dia linda, posso lhe pagar outro café?
- Obrigada, mas minha xicara ainda está cheia...
- Cheia e fria, não? Não me diga que com este inverno gostas de café frio... pareceu-me longe daqui, mexendo o café e por isso ele está gelado... Jean, plus un café, s'il vous plaît! - pedindo ao garçom, mais um café.
- Desculpe-me, agradeço, mas não o quero... já estava de saída... - levantou procurando seu casaco e sua bolsa atrás da cadeira.
- Sem tomar nem teu café frio? Poxa, deixe-me apenas me apresentar... - levantando-se também e apontando para que ela se sentasse novamente.
Tanta ousadia a iriitava, mas sem entender porque, obedeceu os gestos daquele rapaz, que de alguma forma lhe chamara atenção e sentou-se.
- Mon nom est Pedro, satisfaction à dela connaître...
- Juliana. JE NE PARLE PAS FRANÇAIS.... - ela perdera a paciência e levantou-se novamente a caminho da saída, esbarrando bruscamente em Jean, o garçom...
- Desculpe-me Juliana, deixa apenas lhe dizer uma última coisa...
- Prazer em conhecê-lo, Pedro, mas estou atrsada. Obrigada pelo café. Au revoir...
Saiu ainda com o casaco nas mãos, esquecendo os 6 graus que fazia após aquela porta! Atrapalhada entre segurar a bolsa, colocar o casaco e xingar o frio, pensava...:
Pedro, Pedro... que abusado! Quantas vezes ele precisava ouvir que eu não falo francês? "Posso te pagar outro café?" Ora, Ora... quanto mais eu rezo, viu!!..... Deuses!! Estou atrasada mesmo... pra onde será que fica o metro?
E ali partiu, ela e sua desorientação... sempre perdida, sempre atrasada...! Assim era Juliana, com seu jeito atrapalhado de ser, suas manias, seus sonhos, suas paixões, seus medos, tudo acontecendo ao mesmo tempo, no mesmo lugar.
O que será que que ele ainda queria dizer? - dentro do metro, a caminho do hotel Pedro, o abusado, ainda a perturbava....- O que será que me irritou tanto? Bom... já foi... paciência....
Chegou ao hotel correndo, tomou um banho e desceu para esperar Daniela, sua amiga de faculdade que não via desde quando terminaram o curso e Daniela mudou-se para Paris! Sentou-se ao bar do hotel quando o garçom se aproxima e lhe pergunta:
- Il accepte un café, madame ?
Juliana escutou aquela frase como quem toma um susto. Não falava francês, mas sabia que ele havia lhe oferecido um café. Virou-se rapidamente na direção do garçom e o olhava calada...
- Madame...? o garçom a chavama, como se tivesse percebido q ela saira daquele bar por um instante...
- Non, merci.... - sussurrou Juliana, voltando-se pra frente...
Sim. Ela estava pensando em Pedro, ou melhor nos 5 minutos em que viu aquele moço lhe irritar e lhe fazer sair as pressas daquele Café, inclusive sem mesmo deixa-la tomar seu café. Sobretudo, sem entender porque, lembrava da maneira como ele sorria, como ele mexia incessantemente no cabelo, mas principalmente na ultima coisa que ele queria dizer antes dela cruzar aquela porta.
- Jú?
- Dani!!!! Que bom te ver amiga!!! Quanta saudade!!!
- Vamos?
E foram passear pelas ruas frias de Paris a procura de um canto onde poderiam se divertir e matar a saudade!
No dia seguinte...
" Ai Deus! Que dor de cabeça é essa? .... cerveja maldita! Nunca mais, nunca mais!! ..... melhor descer e tomar café..."
Pronto! Ali estava a palavra "café" causando sensações estranhas!
"Não, não Juliana, chega!!!! Não pode pensar naquele mala toda vez que ouvir ou pensar qualquer coisa q lembre daqueles 5 minutos em que o viu! Chega!.... Onde fica mesmo aquele Café onde estava ontem??? JEAN!!! Ele sabia o nome do garçom!!!
Deu um pulo da cama, tomou banho, um remédio para aquela dor de cabeça, desceu tomou café e seguiu, ela, sua desorientação, seus medos, suas paixões, sua coragem... tudo ao mesmo tempo!Caminhou pelas ruas até dar-se conta de que estava novamente no mesmo café de ontem. Sentia-se como que hipnotizada. Entrou e percebeu que Jean, o garçom, a observava. Antes mesmo que ele expressasse qualquer coisa repetiu com um meio sorriso:
- JE NE PARLE PAS FRANÇAIS!
E Jean sorridente:
- Eu sei. Você é brasileira, não é?
Surpresa diante de tal fato pergunta:
- Sou sim. Você também é brasileiro?
Sorrindo Jean balançava a cabeça como se dissesse não.
- Não. Sou Francês, mas morei alguns anos no Brasil. Brasileiro é aquele seu amigo de ontem.
Meio confusa ri e pergunta:
- Ele não é meu amigo. Você o conhece?
Jean novamente em seu gesto negativo, mas sempre sorridente:
- Não o conheço, mas ele costuma freqüentar esse café. Ouviu-me certo dia falando em português e apresentou-se.
- Será que ele aparece por aqui hoje?
- Talvez...
Pois Juliana resolveu sentar e esperar. Mas o que diria a ele? E se a tratasse mal? Muitas eram as perguntas que passavam pela cabeça, que a cada barulhinho que o sininho preso a porta fazia, verificava se era Pedro que chegava. Quando já havia perdido a noção do tempo, Jean se aproxima e diz:
- Madame....! Apontando com a cabeça o rapaz sentado ao balcão...
Pedro!! Era ele! subtamente sentiu um medo enorme, uma vontade de sair pelos cantos sem que ele a percebesse. E se ele não a reconhecesse??? Medo! Juliana estava com medo. Pedro parecia bravo, carrancudo, incomodado, mesmo assim Juliana levantou e dirigiu-se a ele:
- Com lincença, posso lhe pagar um café? Disse apontando para a mesa onde estava sentada.
Pedro franziu a testa, como se não tivesse entendido a pergunta, deixou escapar um sorriso timido e disse:
- Pardon, je ne parle pas Portugais...
Os dois riram e foram sentar. Ali conversaram sem sentir o tempo passar, descobriam-se entre histórias de vida, gostos, sonhos, risos e duas horas depois pareciam saber tudo um do outro. Pedro morava em Paris há sete anos, quando sua mulher foi transferida do Brasil para lá, ainda não sentia-se adaptado, apesa sentir-se feliz ali. O frio era quem lhe tirava o humor! Juliana por sua vez amava o frio tanto que por ele escolhera passar suas férias na Europoa no iverno, namorava e sonhava com seu casamento que seria dali 8 meses numa praia na Bahia. E assim entre risos e olhares, o dia passou e já se fazia noite!
Jean aproxima-se e os interrompe dizendo que infelizmente precisa encerrar o Café.
- Meu Deus! Como o tempo passou! Sua mulher vai lhe matar!
- Ela está na Espanha, num congresso.
- Ok, ok... mas eu também preciso ir, preciso arrumar minhas malas, volto amanhã pro Brasil!
Levantaram, Juliana abriu um sorriso para Jean que lhe disse com a cara amarrada:
- JE NE PARLE PAS FRANÇAIS! Todos cairam na risada.
- Desculpe-me Jean! Chance!
- Sorte pra você também! Au revoir!
Juliana e Pedro sairam e um longo silêncio antecedia a despedida:
- Quer companhia até o metro? Perguntou Pedro.
- Obrigada, não precisa, desde ontem aprendi o caminho, acho...
- Ok... então....Au revoir?
- Au revoir...
Os dois se abraçaram rapidamente na tentaiva de acabar logo com aquilo, ao voltarem do abraço o silêncio retornou, a respiração aumentou e Pedro a beijou. Ainda abraçados, Juliana lembra-se...
- Pedro, ontem antes de ir embora, você me disse que queria dizer uma última coisa... o que era?
- Há muitos anos, em São Paulo conheci uma moça, Mariana, num Café na Liberdade, a vi uma única vez e assim que te vi me lembrei dela. Aliás vocês são incrivelmente parecidas...!
- Quer dizer que voltei neste Café pra ouvir que sou parecida com uma tal de Mariana???? perguntou num tom ironico e de decepção...
- Não, não... Você voltou neste Café pra me mostrar que é ela quem se parece com você!
O silêncio voltou, mas agora acompanhado de dois sorrisos...
- Au revoir? Perguntou Juliana, ainda sorrindo...
- Não, até mais! Respondeu Pedro a soltando do abraço.
Ali se sepraram. Juliana ajeitou o casaco, segurou a bolsa e seguiu. Pedro ainda parado gritou:
- Juliana!!! O Metro fica pra lá...


"A vida é a arte do encontro embora haja tanto desencontro pela vida"

Um comentário:

Richard disse...

je t'aime dans tout idiome, même avec des jalousies…