Era o quinto dia de UTI.
Não subi, fiquei no saguão do hospital com o Samuel, meu afilhado, nos braços, enquanto ele dormia. Eu não queria entrar para vê-la, não aguentava mais aquilo tudo... eu só queria que aquele pesadelo acabasse e tudo voltasse a ser como antes.
Ana, é melhor você subir....
Sileide dizia, com as mãos na minha perna.
Eu não quero.
Eu não queria mesmo. Tava cansada, revoltada, sentia meu corpo dormente...
Não lembro o que pensava, nem sei se conseguia pensar em algo, lembro-me apenas de ficar olhando o Samuel dormindo. Ali fiquei por uns dez minutos, até que subitamente passei ele para o colo da Sileide e subi.
Eram dois lances de escada.
Não sei porque, a cada degrau algo me invadia, uma esperança, não sei. Mas, durou só até o último degrau, quando vi a imagem da sala de espera. Minhas tias, minha prima, alguns amigos, minha irmã, todos tinham os olhos vermelhos e olhavam para o chão. Assim que cheguei ao andar, alguém partiu para me abraçar, desviei e fui em direção à porta da UTI.
Já havia passado o horário de visita e mesmo assim ninguém me barrou. Era o primeiro sinal.
Enquanto lavava as mãos, tentava desperadamente o olhar de algum médico, algum enfermeiro, mas nada, assim que me viam, desviavam o olhar para baixo.
Minha lembrança é em camera lenta. O corredor, as pessoas, aqueles aparelhos todos, os sons...
Em frente a cama, havia uma espécie de banquinho. Ali sentei e fiquei.
Caralho. Minha mãe vai morrer.
Não sei quando tempo fiquei ali sentada, mas não foi pouco. Chorei muito. Assim que meus irmãos se afastaram um pouco, tomei coragem e levantei. Nunca acreditei nessas coisas, mas é verdade, assim que encostei nela os batimentos cardíacos foram de 44 para 160.
Ela sabia que eu estava ali.
Foi então que decidi me despedir. Lembro-me palavra por palavra.
Encostei minha cabeça na dela e cantei, como fiz todos os outros dias...
Dali pra frente, meu corpo adormeceu de verdade, tudo formigava. Eu ouvia, mas não escutava, eu olhava, mas não enxergava...
Ao deitar, para dormir, um filme de todos os anos me veio à cabeça e ao fechar os olhos eu enxergava uma luz vermelha e forte. Assim adormeci abraçada ao Thiago, meu irmão, mas apenas por duas horas, quando fui acordada para o pior dia de minha vida.
Nonô havia partido.
Desde pequenina, perguntava à ela:
Mãe, você me ama?
E ela sempre respondia:
Pouco não.
A última vez que estive com ela acordada, minha última pergunta foi essa, mas a resposta pela primeira vez foi diferente.
Sim, filha. Muito.
Há exatos um ano e quatro meses, é só a recordação dessa resposta que me alivia a dor da saudade, mesmo no meio do choro com a lembraça desse último dia.
Não subi, fiquei no saguão do hospital com o Samuel, meu afilhado, nos braços, enquanto ele dormia. Eu não queria entrar para vê-la, não aguentava mais aquilo tudo... eu só queria que aquele pesadelo acabasse e tudo voltasse a ser como antes.
Ana, é melhor você subir....
Sileide dizia, com as mãos na minha perna.
Eu não quero.
Eu não queria mesmo. Tava cansada, revoltada, sentia meu corpo dormente...
Não lembro o que pensava, nem sei se conseguia pensar em algo, lembro-me apenas de ficar olhando o Samuel dormindo. Ali fiquei por uns dez minutos, até que subitamente passei ele para o colo da Sileide e subi.
Eram dois lances de escada.
Não sei porque, a cada degrau algo me invadia, uma esperança, não sei. Mas, durou só até o último degrau, quando vi a imagem da sala de espera. Minhas tias, minha prima, alguns amigos, minha irmã, todos tinham os olhos vermelhos e olhavam para o chão. Assim que cheguei ao andar, alguém partiu para me abraçar, desviei e fui em direção à porta da UTI.
Já havia passado o horário de visita e mesmo assim ninguém me barrou. Era o primeiro sinal.
Enquanto lavava as mãos, tentava desperadamente o olhar de algum médico, algum enfermeiro, mas nada, assim que me viam, desviavam o olhar para baixo.
Minha lembrança é em camera lenta. O corredor, as pessoas, aqueles aparelhos todos, os sons...
Em frente a cama, havia uma espécie de banquinho. Ali sentei e fiquei.
Caralho. Minha mãe vai morrer.
Não sei quando tempo fiquei ali sentada, mas não foi pouco. Chorei muito. Assim que meus irmãos se afastaram um pouco, tomei coragem e levantei. Nunca acreditei nessas coisas, mas é verdade, assim que encostei nela os batimentos cardíacos foram de 44 para 160.
Ela sabia que eu estava ali.
Foi então que decidi me despedir. Lembro-me palavra por palavra.
Encostei minha cabeça na dela e cantei, como fiz todos os outros dias...
Dali pra frente, meu corpo adormeceu de verdade, tudo formigava. Eu ouvia, mas não escutava, eu olhava, mas não enxergava...
Ao deitar, para dormir, um filme de todos os anos me veio à cabeça e ao fechar os olhos eu enxergava uma luz vermelha e forte. Assim adormeci abraçada ao Thiago, meu irmão, mas apenas por duas horas, quando fui acordada para o pior dia de minha vida.
Nonô havia partido.
Desde pequenina, perguntava à ela:
Mãe, você me ama?
E ela sempre respondia:
Pouco não.
A última vez que estive com ela acordada, minha última pergunta foi essa, mas a resposta pela primeira vez foi diferente.
Sim, filha. Muito.
Há exatos um ano e quatro meses, é só a recordação dessa resposta que me alivia a dor da saudade, mesmo no meio do choro com a lembraça desse último dia.
2 comentários:
thersorpFilha. Bem que tentei escrever alguma coisa melhor, mas estou com a vista toda embaçada e com os olhos vazando. A gente ganha muito aprendendo a conviver com as perdas. Hoje tenho certeza que a morte é muita mais amiga que a vida. A morte sempre foi uma certeza concreta em toda vida, e nos acompanha desde a nossa concepção. Já a vida, uma traiçoeira. Cheia de armadilhas e tropeços. Sempre pintada para parecer bonita. É a vida quem nos abandona e só a morte nos abraça nessa hora. Viver e conviver bem com a morte é que é o nosso grande desafio. Te amo. Beijo do pai. Pontes/09
Oi...
Perdi o pai qdo tinha 14 anos e ainda sinto a falta dele...sei que vou sempre sentir. O vazio continua lá, mas não dói mais toda hora. As lembranças das coisas que fiz pra ele enquanto ele estava doente me confortam. Tentei ser a melhor que pude.
Bem... só queria te dizer que me emocionei muito com o teu texto. O jeito que tu escreve toca lá bem no fundo...
Beijos.
Joice
30/11/09
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