Lembro-me de chegar em casa calada e sentar na cozinha. Minha mãe veio até mim, acendeu um cigarro e sentou a mesa.
- O que foi?
- Tô com medo...
Meu namorado, na época, havia ido encontrar a ex-mulher para resolver alguma pendência de documento. Lá ficamos, as duas, conversando sobre isso por horas.
- Mas do que você está com medo, afinal?
- Medo do barco furar...
- Minha filha, o barco vai furar e não vai ser uma vez. Ele fura sempre... O importante é saber nadar. E isso, sei que você já sabe. Fique sempre tranquila e veja para que lado você irá nadar.
Jamais esqueci isso. Enquanto ela ainda estava viva, foram muitas vezes em que cheguei em casa, dizia que o barco havia furado, ela me sorria e eu dizia...
"Já sei, já sei... tô nadando...!"
Passamos a vida colecionando barcos furados. Seja um trabalho, uma amizade, a compra de um carro ou a velha insistência em algum relacionamento, lá vem a água entrando por baixo nos obrigando a pular e nadar.
Vai ver, essa é mesmo a graça da 'cousa'. Com o tempo, a gente perde aquele desespero de jogar a água pra fora e já pula logo. Chega a ter vezes que nadar parece muito melhor do que aquele balanço do barco.
Hoje, sempre que isso acontece, continuo sentando na mesa da cozinha e posso ver o semblante calmo dela, olhando pra mim com a cara de "não se preocupe, vai dar tudo certo". Isso me faz bem e, de verdade, me acalma.
Não importa quantos barcos novos ou velhos possam furar, a sensação da liberdade em saber nadar, irá sempre me dar a certeza de que logo ali tem um novo lugar para descansar antes de entrar num novo barco!
Um comentário:
Ainda tenho esperança de você vir pro meu barco e se precisar nadar, eu pulo com você.
Zé
Postar um comentário