segunda-feira, 27 de abril de 2009

Sempre sábias...

Bom, e aí que entre tanta coisa... riso, choro, garrafas de saquê, jogatinas, lembrança boa pra lembrar e ótima pra esquecer... temos aqui mais uma segunda-feira!!!!

E a companhia da velha e boa inconstância...!

Ah, claro... e das palavras do Pessoa, que tem ilustrado essa fase e me acalmado um bocado!!!!


Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo,

Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.
Por isso, alheio, vou lendo

Como páginas, meu ser.
O que sogue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo : "Fui eu ?"
Deus sabe, porque o escreveu.

terça-feira, 21 de abril de 2009

Sobre areia...

Salve!!!

Mais uma vez ao som da chuva de Caraguá, a falta de inspiração acompanha a vontade de escrever. A verdade, é que tudo daqui me movimenta, ao mesmo tempo que me acalma... Aqui, as coisas mudam de lugar! Sinto-me muito menos atuante e mais espectadora...
Ouço o silêncio diante do mar, sentada em nosso famoso "banquinho" e encho os ouvidos de respostas... a cena é poética, as respostas nem tanto. Mas, apesar de ter um amor incondicional pelo mar e pelo que ele me traz, dessa vez, quem me roubou atenção foi outra personagem, a areia.
Agora pouco, no cenário do "banquinho", passei a observar a areia ao receber o vento. Automaticamente lembrei-me da "sentença de granito" do meu, tão amado, Nietzsche. Recordei da passagem de um dos livros, em que ele diz que nossas verdades e desejos estão sobre areia, conforme bate o vento, já não são mais os mesmos...
De repente, me dei conta de que estava sorrindo... Talvez, por me ver tão menina... talvez por de fato, perceber as verdades e desejos mudando de lugar junto com aquela areia...!
Sobretudo, amo cada vez mais este lugar e tudo o que ele me ensina!
Nietzsche foi quem me fez sorrir, mas quem eu tinha nas mãos era o Pessoa...! E foi ao abrir, mais uma vez aleatoriamente o livro, que um sorriso maior ainda me tomou!
"Pensar, pensar e não poder viver!
Pensar, sempre pensar, perenemente,
Sem poder ter a mão nele.
Ah, eu sorrio
Quando [por] vezes noto o inconsciente
Riso vazio do bandido
Rindo-se da inocência!
Se ele soubesse
O que é perder a inocência toda...
Ó tédio! Ó tédio, quem me dera tê-lo!"

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Como borboletas...

Passava das quatro da manhã e nada... ela continuava acordada. Cansada de virar de um lado para outro, enrolou-se no cobertor e devagar levantou, tentando não acordá-lo. Foi até a janela e se escorou na parede olhando para fora.

Subitamente esboçou um sorriso. Como era linda Barcelona!

Ali parada, admirando a agitada e encantadora cidade, foi lembrando de quando chegara, dos primeiros dias, da sensação de liberdade e de solidão... Um ano!!! Deuses, como passou rápido...!

Encarando o frio do outono, abriu a janela da sacada, sentou-se e acendeu um cigarro. Passou, então, a relembrar cada experiência vivida naqueles meses, dos lugares que conheceu, dos amigos que fez, das incríveis festas, bebedeiras e choradeiras com saudade do Brasil...

Pronto, em menos de vinte quatro horas, ela poderia matar toda aquela saudade... assim que aquela escuridão desse lugar ao esbranquiçado sol, ela partiria de volta... Foi quando um nó tomou sua garganta e coração. Era, enfim, a última noite daquela temporada...

Tentando engolir o choro e enganar a dor que estava sentindo em dar-se conta de que aquilo acabaria em poucas horas, virou-se em direção ao quarto e passou a observá-lo, coçando a barba enquanto dormia.

Sim! Ali estava sua verdadeira angustia em ir embora. Conheceram-se a menos de dois meses, mas viveram como se jamais fossem deixar de se ver. Naquelas poucas e intensas semanas, pareciam saber tudo um do outro e talvez na tentativa de se protegerem, em nenhum minuto tocaram no como seria quando aquilo acabasse.

Ainda sentada, com os olhos voltados para o quarto, percebeu que ele havia acordado e com os olhos apertados e os cabelos bagunçados vinha em direção a sacada...

- Como puede con este frio, cariño? disse abraçando-a

Não respondeu nada, aceitou o abraço e deixou o nó se desfazer num choro. Ele, com sua voz sempre calma, sussurrou...

- Noooooo.... No estés triste...! Mira, cariño... el amor no tiene por qué ser eterna, pero infinito en cuanto hay duración... lo que dice la bossa nova, no? - sorrindo, enxugava as lágrimas dela...

Pegou-a pela mão e entraram de volta para a cama! Passaram o resto da noite conversando, rindo, namorando... De alguma forma, aquelas palavras aliviaram sua angustia, dando a certeza de que a felicidade estava ali, naquelas poucas horas que lhe sobravam.

Assim que o dia nasceu, ela partiu. Levando e deixando sua história, sem planos...

Sabia que ao tempo pertencia seu futuro...!

"O amor é o ridículo da vida, a gente procura nele uma pureza inexistente, que ta sempre se pondo, indo embora. A vida traz e leva histórias... como borboletas que vivem apenas vinte e quatro horas... O fim não dói..!" (Cazuza)

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Tornando-me

"Procuro despir-me do que aprendi
Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram,
E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos,
Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras,
Desembrulhar-me e ser eu..."

(Alberto Caeiro)

sábado, 11 de abril de 2009

Caminhos...

... talvez, o erro seja onde procurar,
talvez, os caminhos dão sempre no mesmo lugar...
é certo que vida não espera,
mesmo com tanta coisa pra se desvendar.
Por tudo que se andou e pro tanto que faltar,
não dá pra se prever nenhum futuro.
O escuro que se vê, quem sabe possa iluminar,
os corações perdidos sobre o muro...

domingo, 5 de abril de 2009

Opostos se distraem, dispostos se atraem...

Moram em cidades vizinhas, mas todas as manhãs sobem ao mesmo onibus que os levam para a empresa em que ambos trabalham.

Ele, sempre aparentemente emburrado, senta-se na primeira poltrona e raramente conversa com alguém, quando não dorme no caminho, fixa os olhos para fora enquanto coça sua barba.

Ela, sobe na parada seguinte à dele e sempre tem um "bom dia" animado para o motorista e segue sorrindo para alguma poltrona de trás, raramente não conversa, está sempre contando alguma história ou brincando com algum colega de trabalho. Por muitas vezes, tal animação e bom humor o irrita profundamente...

Durante meses, nunca trocaram nenhum esboço de cumprimento.

Certo dia, ele que almoça sempre no mesmo lugar, no mesmo horário, tomava seu café no balcão antes de seguir novamente ao trabalho, quando ouviu certa movimentação no caixa e virou-se para ver o que acontecia.

- Nada posso fazer se o sistema de cartão está fora do ar queridinha, não tenho dinheiro aqui e não há tempo para ir ao banco, o que sugere?

Era ela! A sempre bem humorada, colocando as manguinhas irritadas de fora, enquanto a nova atendente do restaurante, não conseguia passar seu cartão e não achava nenhuma solução para deixá-la ir embora. Ele então aproximou-se, cortando a fila que se formava e quase que num sussurro perguntou à atendente qual o valor da conta em questão, sacando a carteira do bolso.

- R$38,00, senhor.. -Respondeu a atendente

Sacou então uma nota de cinquenta reais e entregou a moça, visivelmente nervosa em seu primeiro dia de trabalho.

- Como assim? Não, não, muito obrigada...

- Você não está com pressa? Aí está, pode ir...

- Quem é você? Mocinha, devolva o dinheiro a ele.

- Deixa disso, você me paga outro dia..

- Outro dia? Querido, agradeço a gentileza, mas não posso aceitar, nem o conheço.

- Não nos conhecemos, mas trabalhamos juntos e todas as manhãs pegamos o mesmo onibus fretado.

- Jura?

- Sim. Agora, aceite o dinheiro e deixe os outros daqui pagarem a conta.

Disse em tom conclusivo, colocando delicadamente as mãos nas costas dela e a conduzindo para a porta, que ainda assustada e confusa olhava pra ele, sem entender...

- Como assim nunca lhe vi?

Sorrindo, ergueu o ombros como quem diz "não sei"...

- Tomamos o mesmo onibus há meses, mas nunca lhe vi aqui no restaurante...

- Pois é, não costumo almoçar.

- Não deveria fazer isso, moça...

- Poxa, mal sei como agradecer, mas já que agora sei que tomamos o mesmo fretado, amanhã mesmo lhe pago...

- Não se preocupe com isso. Façamos o seguinte, almoce comigo qualquer dia e lhe deixo pagar, pode ser?

- Fechado! -respondeu sorrindo

Desde então, ele não dorme mais no caminho até o trabalho e não se irrita mais com o bom humor dela, que senta sempre ao seu lado contando histórias e até conseguindo fazer com que ele conte algumas, também.

Não, eles ainda não almoçaram juntos, mas na verdade, ele vem pensando em convidá-la para jantar...