Não sei, só sei que foi assim!
Vem doismiledez Vem!
Verdade ou mentira? Bem, já disseram uma vez que se a lenda for mais interessante que a verdade, publique-se a lenda. Verdade? Mentira? Sei não... mas foi assim!
(Marcelo Quintanilha)

Será namoro ou amizade? Rolo, cacho, ensaio de amor, romance ou pura clandestinidade? “Qualé a tua, cara? A garota do tempo que nem chove nem molha. Só no mormaço, na leseira das nuvens esparsas.
Amor líquido, lembrando do livro de Zygmunt Bauman sobre a fragilidade dos encontros amorosos, fica cada dia mais difícil saber quando é namoro ou apenas um lero-lero, vida noves fora zero... Cada vez mais raro ouvir falar em pedido formal de enlace: “Você me aceita em namoro”? Pior ainda se for pedido de noivado. Casamento então, nem se fala.
Lembro que pedir a mão aos pais, meu Deus, era um nervosismo curado com um conhaque tomado no bar da esquina para criar coragem. Seriam mudanças do amor?
Parece que a maioria dos homens, além de não pedir em namoro, além de não pegar no tranco, ainda corre em desespero diante de uma sugestão ou proposta de casamento feita pela moça. E agora são as mulheres que partem para o ataque e, diante de uns temerosos ou acanhados sujeitos, escancaram suas vontades, suas paixões, e fazem suas apostas, seus pedidos, põem na mesa os seus desejos e cartas de intenções.
No tempo de namoro havia sempre o medo do fora. Um sim, mesmo o mais previsível, era uma festa. Já no tempo do “ficar”, quase nada fica, nem o amor daquela rima antiga. Porém alguns sinais continuam valendo e dizem muito. O ato das mãozinhas dadas no cinema, por exemplo, ainda é o maior dos indícios. É que nem ramalhete de flores, carta ou um e-mail de intenções. Pode valer mais do que uma cantada nervosa, mais do que o restaurante japonês, mais do que um amasso no carro, mais do que um beijo com jeito, daqueles que tiram o baton e a força dos membros inferiores. “Vamos pegar uma tela, amor?”, como se dizia não muito antigamente. Eis a senha. Mais até do que um jantar à luz de velas, que pode guardar apenas um desejo de sexo dos dons Juans que jogam o jogo jogado e marketeiro. O cinema, além da maior diversão, como diziam os cartazes de Severiano Ribeiro, é a maior bandeira. Nada mais simbólico e romântico. Os dedos dos dois se encontrando no fundo do saco das últimas pipocas... Não carecem uma só palavra, ainda não têm assuntos de sobra. Salve o silêncio no cinema, que evita revelações e precoces besteiras.
Ah, os silêncios iniciais, que acabam voltando depois, mas voltando sem graça, surdo e mudo, eterno retorno de Jedi. Nada mais os unia do que o silêncio, escreveu mais ou menos assim, com mais talento, claro, Murilo Mendes, poeta dos melhores e mais líricos. Palavras, palavras, palavras... Silêncio, silêncio, silêncio... Dessas duas argamassas fatais o amor é feito e o amor é desfeito. Simples como sístole e diástole de um coração que ainda bate. E será que fica?
Saquê?
Uisque.
Puro?
Gelo.
Mais?
Suficiente.
Dança?
Assisto.
Acompanha?
Aceito.
Bem assim?
Obrigada.
Ligo?
Sim.
Mais um?
Do seu copo.
A sempre um outro olhar na mesma direção,
um paladar para o mesmo vinho tinto,
o sorriso que aceita a sedução,
o arrepio que sucede a respiração,
a alegria que acompanha o medo,
o suspiro para a chegada dele,
o novo,
de novo.
Meses
Às vezes, ela passava meses sem dar sinal de vida. De repente, ligava, no meio da madrugada. Ele acordava assustado e lá estava ela, do outro lado da linh. Sem “alô”, sem “oi”.
– Preciso conversar com você, dizia, entre uma tragada e outra.
– O que aconteceu?
– Estraguei tudo. De novo.
Isso, claro, era exagero dela. Não era sempre ela quem estragava tudo, às vezes, estragavam por ela. Mas ela sempre questionava a própria culpa. Se não conseguia se colocar como culpada, acusava a si própria de ser cúmplice. Ele já sabia que o “estraguei tudo” provavelmente era exagero, e perguntava a ela o que tinha acontecido.
E ela contava. Confusões, relacionamentos, indas e vindas. Sempre com pessoas diferentes, em situações diferentes, mas sempre o mesmo problema: desencontros.
E ele, claro, ohuvia. Não apenas ouvia, como aconselhava e brigava com ela. A despeito do fato de que isso nunca havia sido oficializado, ele sabia que tinha esse direito. Não sabia ao certo porque tinha o direito, mas sabia que tinha. E ela contava tudo: detalhes de forma cristalina e diálogos de forma confusa, e ele se virava da melhor forma possível para montar a história em sua mente.
Nem sempre ele conseguia.
Às vezes, ela aparecia no meio do quebra-cabeça, sorrindo, e ele precisava se concentrar e começar tudo de novo. E montava as histórias, sempre com ela no meio, tentando entender o que tinha acontecido e aconselhá-la, confortá-la, de alguma forma.
E, às vezes, conseguia. E ela dizia que seus conselhos eram bons, que haviam feito ela enxergar os fatos de forma mais límpida, lhe desejava um beijo e desligava. E ele virava de lado, tentava sorrir e pensava duas coisas: espero que ela durma mais tranqüila.
E, a outra, quase antes de dormir, sempre lhe vinha na mente: um dia, ela vai entender.
Sorria um “boa noite”, baixinho, no escuro, e dormia. Com ela.
(R.R.)
"Tentei, porém nada fiz...
Muito, da vida, eu já quis.
Já quis... mas não quero mais..."
Cecília Meireles